segunda-feira, 24 de março de 2008

MEU CÃOZINHO ESPERTO


Publicado dia 19 de janeiro de 20004


Hoje estreia nos EUA "Teacher's Pet", um filme de animação da Walt Disney. Mais um numa longa lista de títulos criados pelo estúdio do Rato Mickey desde "Steamboat Willie", de 1928. Mas "Teacher's Pet" marca também o fim de uma época. Este é o penúltimo filme de animação tradicional feito pela Disney; o último, "Home on the Range", estreará na Primavera. Animação tradicional, ou animação 2D, é o nome dado ao método de criar filmes através de milhões de desenhos concebidos manualmente por batalhões de artistas. O rótulo foi criado para o distinguir da animação por computador, ou CG ("computer generated"). "Teacher's Pet" é adaptado de um programa de televisão da Disney que conta a história de um cão, Spot, que quer ser tratado como um ser humano. Foi o último filme produzido pela Disney segundo o método tradicional ("Home on the Range foi concluído antes, mas estreará mais tarde por problemas de montagem e distribuição). Esta semana, a Disney anunciou que vai encerrar o seu estúdio de animação na Florida. Os 280 trabalhadores deste estúdio da Florida serão despedidos ou integrados noutras divisões da empresa. No ano passado, a Disney fechou um estúdio de animação tradicional em França; até ao fim de 2004, fechará outro em Tóquio. A empresa vai manter o seu estúdio de animação de Burbank (Califórnia), mas para produzir apenas séries de televisão ou filmes de venda directa para vídeo. O primeiro filme animado sonoro foi produzido pela Disney - "Steamboat Willie" marcou a estreia do Rato Mickey, que se tornaria no símbolo de uma das mais poderosas máquinas do entretenimento americano. Ao longo de 75 anos, a Disney concebeu clássicos como "Cinderela", "Branca de Neve" ou "Fantasia". Mas depois de "Rei Leão", no início dos anos 90, a Disney nunca mais conseguiu nenhum êxito no campo da animação tradicional. Os seus filmes mais recentes ("Treasure Island" e "Atlantis") obtiveram resultados de bilheteira fracos; mesmo um filme bem sucedido como "Lilo & Stitch" ficou aquém do esperado. Isso não significa que o cinema de animação esteja em decadência nos EUA. Pelo contrário: filmes de animação por computador como "Shrek", "Toy Story" ou "Finding Nemo" foram colossais êxitos de bilheteira. Os dois últimos foram criados pelo estúdio Pixar, mas distribuídos pela Disney. "Nemo" foi mesmo o filme mais visto nos EUA em 2003. O problema é que enquanto a animação por computador acumula sucessos, a animação tradicional parece ter caído em desgraça. Outros estúdios sofrem da mesma maleita. A Dreamworks (que produziu "Shrek") viu os seus filmes mais recentes em animação 2D fracassar ("Spirit" e "Sinbad"); a Warner Brothers tentou relançar as suas históricas personagens Bugs Bunny e Daffy Duck num filme que mistura animação 2D com figuras humanas ("Looney Toons Back in Action"), que também foi um fiasco. O filme de Natal da Disney nos EUA, "Brother Bear", era de animação 2D e teve resultados modestos. Da mesma forma, as expectativas não são muito elevadas para "Teacher's Pet" e piores ainda para "Home on the Range". Outro projecto, "A Few Good Ghosts", foi cancelado. "Cada vez mais filmes animados estão a ser gerados através da CG", explicou à Reuters Heidi Trotta, porta-voz da Disney, justificando o encerramento do estúdio na Florida. Este desinvestimento não significa que a Disney nunca mais vá fazer filmes de animação tradicional, mas analistas citados pela revista "Variety" acham que serão precisos muitos anos até que a empresa regresse ao sector. Muitos críticos de cinema dos EUA notam que a animação tradicional não é um mal em si. Numa crítica a "Brother Bear", o jornal "Chicago Tribune" notava que o motivo porque os filmes de animação por computador têm sucesso é "a sua capacidade de contar bem uma história" - e que isso é que se perdeu nos filmes de animação 2D da Disney. "A perda de talento nos últimos anos no sector das longas metragens de animação é aterrador", disse à AFP Roy Disney, neto de Walt. Roy Disney é um crítico feroz do actual presidente da empresa, Michael Eisner, e acusa-o de ser responsável pela perda de qualidade dos filmes de animação 2D, outrora o "ex-libris" da firma do Rato Mickey.

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